A vida dos motoristas TVDE. Precariedade, excesso de horas, baixos salários.

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Trabalham entre 12 e 16 horas por dia, seis dias por semana a recibos verdes. Em troca recebem hoje valores que rondam o salário mínimo. Há motoristas da Uber desesperados e ninguém tem solução.

Entrei no carro de Cândida* ( nome ficticio ) numa noite chuvosa de dezembro. O trânsito de hora de ponta prolongou a viagem entre a estação de Santa Apolónia e o Bairro Alto, em Lisboa, dando tempo à condutora para resumir os primeiros dois meses de trabalho para a Uber. “Como entrei a meio de outubro não o trabalhei completo, por isso ganhei muito pouco”, começa por explicar, para logo percebermos que, pelo seu primeiro mês de trabalho completo, novembro, Cândida conseguiu apenas 440 euros. Foram seis dias de trabalho por semana, 12 horas por dia. “Treze horas em vésperas de feriado”, acrescenta.

Fazendo a conta aos 26 dias que trabalhou, por cada uma das 312 horas recebeu 1,41 euros à hora. Brutos, porque grande parte dos motoristas são contratados em regime de recibos verdes e, daquele valor, ainda é preciso subtrair os impostos a pagar. Não há subsídio de férias, de Natal nem de almoço. Não há dias de férias pagos, nem proteção em caso de doença. Por cada viagem feita em Portugal, a Uber ganha 25%. Cândida ganha 35% do total das viagens, mais 5% se for assídua, ficando a empresa que a contratou com o restante. Apesar de fazer o horário de quem tem um emprego e meio, ganha menos que o salário mínimo fixados pelo Governo .

Mesmo assim, Cândida mantém o sorriso, com o entusiasmo de quem só agora começou um novo desafio. “Se calhar eu ainda não conheço os melhores sítios, onde há mais clientes”, arrisca. Mas também não pode circular muito à procura deles, porque o contrato que a empresa tem com o rent-a-car sobe consoante o número de quilómetros feitos. E a condutora é avaliada por tudo o que faz: quilómetros percorridos, acelerações, travagens. Tudo medido pela tecnologia. “O meu filho já tinha estado na Uber, mas não se deu bem com isto”, conta.

Como ganha à comissão, às vezes trabalha 14 horas e já chegou a conduzir 16 horas. “Tenho consciência que é muito perigoso para as pessoas que transporto.” Francisco*, de 55 anos, já se deu bem. Na Uber e na vida. Até há cinco anos era diretor adjunto de comunicação de uma multinacional de telecomunicações, mas, com a crise, a empresa deixou Portugal. O desemprego em alta e a vontade de contratar funcionários de meia-idade em baixa ditaram que o único trabalho que haveria de conseguir seria em call centers. “Ganhava 600 e tal euros brutos, sempre a recibos verdes”, recorda. Em março de 2019, respondeu a um anúncio que pedia motoristas da Uber. Na entrevista, a empresa de turismo parceira da Uber disse-lhe logo que os turnos são todos de 12 horas: ou das seis às seis, quer seja da manhã ou da tarde, ou das oito às oito. E que só teria uma folga por semana.

Esta terça-feira, por exemplo, começou a trabalhar às 8h30 da manhã, parou meia hora em casa para almoçar e só entregou o carro às 20h30 da noite. As corridas do dia somaram 80 euros no total, dos quais Francisco irá tirar a sua comissão de 35%. Ao fim de 12 horas de trabalho, ganhou 28 euros, dos quais ainda terá de fazer os descontos para a segurança social. Como ganha à comissão, às vezes trabalha 14 horas e já chegou a conduzir 16 horas. “Tenho consciência que é muito perigoso para as pessoas que transporto. E já o disse. Mas eles [empregadores] sabem que eu não tenho grande hipótese de voltar a ter um emprego como tive no passado e, quando uma pessoa se queixa, dizem-nos que, se não estamos contentes, podemos sair…

Um gigante quase sem funcionários

Em algumas empresas, como a de Francisco, qualquer dano feito no carro é pago pelo motorista. “No primeiro mês fiz um risco, ativaram a franquia do seguro e paguei 300 euros do meu ordenado.” Está estipulado no contrato que é ele o responsável pelo material de trabalho. “A conduzir 14 horas seguidas, é fácil haver um minuto de distração”, lamenta.

“Com a aplicação de cliente consigo ver pelo GPS todos os Ubers que estão à minha volta e às vezes estão 10 no mesmo sítio.”


Quem fala com os motoristas tem ouvido, com frequência, relatos de que só estão naquela profissão há dois, três, quatro meses. Os mais experientes notam que as contratações têm aumentado. E, ao contrário do que costuma acontecer entre a nova e a velha guarda, neste caso, mais e menos experientes têm a mesma visão do problema: quantos mais veículos descaracterizados de transporte de passageiros há nas ruas, menos clientes há para cada um. Logo, menos dinheiro ao fim do mês.

Motoristas e empresas parceiras notam que, nos últimos dois ou três meses, o número de viaturas aumentou bastante. “Quando eu comecei, a aplicação da Uber tocava e tocava. Agora, chega-se a estar uma hora ou mais sem que a ‘app’ toque.” Para além de ter instalada a tecnologia de condutor, Francisco instalou também a de cliente. “Com ela consigo ver pelo GPS todos os Ubers que estão à minha volta e às vezes estão 10 no mesmo sítio.


“Cheguei a tirar 800 euros brutos no início”, recorda. Mas foi sempre a cair e agora anda nos 600 a 650 por mês. “Às vezes nem isso.” Depois dos impostos, fica com cerca de 510 por mês.” Lembra que os últimos anos de trabalho pesam nos cálculos da reforma, e que os seus “vão ser baixíssimos”. “Eu faço dois horários semanais só com uma folga e tiro um ordenado mínimo. Por dia sobram-me 10 horas livres para almoçar, jantar, tomar banho e dormir. Vida com este horário e uma folga? Não existe.”

De acordo com o jornal espanhol El Pais, o sindicalista Sayah Baaroun resumiu, à porta do Ministério dos Transportes, o porquê do descontentamento: 70 horas de trabalho por semana [o limite legal em França é de 35 horas] por mil euros por mês [o salário mínimo é de 1.466 euros]”. No Brasil também já houve imensos protestos, um grupo de motoristas fundou a Associação dos Motoristas Parceiros das Regiões Urbanas do Brasil, a primeira do país com o objetivo de defender os interesses dos motoristas ao serviço da Uber.

“Ubernaque – Uber fraude” escrito num caixão. Uma as formas de protesto de um motorista da Uber em Paris.

A Uber defende-se dizendo que “não é uma empresa de transportes, na medida em que não tem carros e não emprega motoristas”. Um tribunal britânico do trabalho não concordou e decidiu que os motoristas ao serviço da Uber não são trabalhadores independentes, mas sim funcionários da plataforma. A decisão, que poderá fazer jurisprudência, pode dar o direito a estes trabalhadores de receberem o salário mínimo, dias de férias e de doença pagos e todos os direitos previstos no código do trabalho.


A Uber, que assim também passaria a fazer descontos para a Segurança Social, recorreu da decisão. Em todo o mundo, a empresa apresenta-se como uma plataforma eletrónica que coloca em contacto motoristas e clientes. Isto apesar de definir as tarifas, de ter o poder de bloquear a aplicação e de impedir que os motoristas negoceiem diretamente com os passageiros. “Os termos são definidos pela plataforma TVDE”.

“Como é que o Governo não olha para isto? É uma exploração!”

“Na entrevista de trabalho perguntei porque é que os turnos diários eram de 12 horas. Responderam-me: ‘Sinceramente? Porque se trabalhar menos não vai ganhar nada e acaba por desistir’.” “Na entrevista de trabalho perguntei porque é que os turnos diários eram de 12 horas. Responderam-me: ‘Sinceramente? Porque se trabalhar menos não vai ganhar nada e acaba por desistir’.” De acordo com o artigo 203.º do Código do Trabalho, o período máximo de trabalho semanal é de 40 horas e o período normal de trabalho diário não pode exceder as oito. No entanto, com os valores que os motoristas estão a fazer atualmente, precisam de prolongar a jornada. “Eu faço 12 horas por dia, às vezes mais”, admite, apontando em seguida para as tendinites que já tem na mão e no ombro direito à conta disso. Num caderno, aponta todos os dias as horas trabalhadas e os rendimentos. Só não aponta a frustração que sente. “Deixei de viver”, lamenta. Nos dias de trabalho, não tem tempo para nada. Por isso, faz questão de tirar duas folgas por semana. “A primeira é para dormir. A segunda é para viver, mas no dia seguinte recomeça tudo outra vez.”

Nesse caderno, pode ver que quando começou a conduzir, às sextas, sábados e domingos, ganhava 3,50 euros à hora. “O meu maior ganho foi em julho, 466 euros, só a fazer três dias por semana”, verifica. Neste momento, o rendimento não ultrapassa “a situação miserável de 1,50 euros à hora”. Como António é reformado, não tem de pagar segurança social. Só dali a um ano é que vai ver de que forma os rendimentos lhe pesam no IRS mas, pelo menos por agora, tudo o que ganha é limpo.

Em média, faz 60 ou 80 euros ao fim de 12 horas de trabalho, de onde tira a sua percentagem de 30%. Nos dias de 60 euros, significa que traz para casa 18. No mês de novembro, o recibo verde que passou foi de 520 euros.
Mas se a empresa vir que gastou demasiado combustível para o que ganhou, ainda lhe desconta dinheiro. “Imagine que eu levo um passageiro ao Algarve mas depois volto para Lisboa com o carro vazio. A média baixa e vão-me descontar combustível. Isso gera uma preocupação permanente.” Os seus dois colegas, diz, queixam-se dos mesmos problemas. “Como é que o Governo não olha para isto? É uma exploração! Mas o nível de desespero é tanto que as pessoas aceitam.”

Bernardo é outro dos empresários que está a contratar, neste momento, motoristas para Lisboa. Mesmo se reconhece que já teve semanas melhores. “No geral as pessoas estão a queixar-se porque a oferta está a crescer demasiado, há muitos carros na rua”, conclui. Bernardo não só é dono de um carro e patrão de três motoristas, como também conduz o carro aos fins de semana. Como recebe a comissão dos três profissionais, a parceria com a Uber está a compensar-lhe. Aos motoristas, nem tanto.


“Infelizmente gostava de conseguir pagar mais, mas sei que com a procura que existe…”, admite, para logo acrescentar que “nunca vão existir salários altos com os preços atuais, nem aqui nem nos setores de táxis. Só se o carro estiver constantemente a andar”. Diz que todos tiram pelo menos o salário mínimo e que “as pessoas têm de ver isto como um trabalho temporário, destinado a quem tinha um trabalho estável, está desempregado e rapidamente precisa de um rendimento para pagar as despesas, ou então como um trabalho complementar”.

Bernardo é outro dos empresários que está a contratar, neste momento, motoristas para Lisboa. Mesmo se reconhece que já teve semanas melhores. “No geral as pessoas estão a queixar-se porque a oferta está a crescer demasiado, há muitos carros na rua”, conclui. Bernardo não só é dono de um carro e patrão de três motoristas, como também conduz o carro aos fins de semana. Como recebe a comissão dos três profissionais, a parceria com a Uber está a compensar-lhe. Aos motoristas, nem tanto.
“Infelizmente gostava de conseguir pagar mais, mas sei que com a procura que existe…”, admite, para logo acrescentar que “nunca vão existir salários altos com os preços atuais, nem aqui nem nos setores de táxis. Só se o carro estiver constantemente a andar”. Diz que todos tiram pelo menos o salário mínimo e que “as pessoas têm de ver isto como um trabalho temporário, destinado a quem tinha um trabalho estável, está desempregado e rapidamente precisa de um rendimento para pagar as despesas, ou então como um trabalho complementar”.

Sofia disse que na sua empresa, também está a contratar mais pessoal. A parceria com a Uber “corre bem”, embora reconheça que “há mais viaturas em Lisboa, o que faz com que haja mais oferta do que procura”. A concorrência “reflete-se, bastante” e a empresa tem hoje “menos rendimentos”.

Foi a única responsável que aceitou falar sem pedir para não citar o nome da empresa. No entanto, a chamada foi interrompida nos primeiros minutos e Sofia nunca mais atendeu o telefone.

Vasco concorda com Bernardo e afirma que os preços “não são justos”. Seja porque o combustível aumentou e “isso não está a ser tido em conta”, seja porque estão abaixo do custo de um táxi, serviço ao qual continua a recorrer, cuja tarifa acha justa e que, acredita, ambos os concorrentes se deviam reger “pela mesma bitola, não só nas obrigações, mas também nas tarifas”. António, por exemplo, considera que as plataformas TVDE praticam dumping (venda abaixo do preço de mercado para conquistar quota).

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